Queda brusca em ETFs de ouro e prata reacende debate sobre diversificação e Fundos Multimercado

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O mercado financeiro presenciou um movimento atípico e preocupante neste dia 22 de janeiro de 2026. Investidores posicionados em ETFs (Exchange Traded Funds) de ouro e prata na NSE enfrentaram perdas acentuadas, com cotações despencando de forma generalizada. O cenário, marcado por forte volatilidade, serve como um alerta severo sobre os riscos de concentração de carteira e traz à tona a relevância de estratégias mais sofisticadas, como os Fundos Multimercado, para quem busca proteção e rentabilidade em tempos incertos.

O susto nos metais preciosos

Os números do pregão de hoje assustam até os mais experientes. Alguns dos maiores ETFs de ouro registraram quedas expressivas: o BSL Gold ETF recuou 9,53%, seguido pelo Tata Gold ETF com queda de 8,54% e o Axis Gold ETF, que perdeu 8,47%. O cenário foi ainda mais drástico para a prata. O Tata Silver ETF afundou 13,6%, enquanto outros fundos ligados ao metal, como o Edelweiss e o Mirae Asset, apresentaram recuos superiores a 9%.

O que chama a atenção, no entanto, é a disparidade entre o preço dos ETFs e o mercado físico ou de futuros. Enquanto os fundos derretiam, os contratos futuros de ouro para fevereiro na MCX caíram apenas 0,77%, e os de prata para março, 1,2%. Essa desconexão, segundo Amar Ranu, chefe de Produtos de Investimento da Anand Rathi Share and Stock Brokers, reflete um ajuste técnico severo. Para ele, os preços dos ETFs estavam esticados e agora sofrem uma “racionalização”, alinhando-se aos preços domésticos e internacionais após uma diminuição nas tensões geopolíticas globais e um movimento de realização de lucros.

Piyush Jhunjhunwala, fundador da Stockify, reforça que essa queda sinaliza volatilidade de curto prazo, e não necessariamente uma perda permanente de valor. Segundo ele, movimentos assim são comuns em investimentos atrelados a commodities, onde o sentimento do investidor oscila rapidamente diante de sinais econômicos. Contudo, para o investidor pessoa física que comprou na alta recente, ver o patrimônio encolher quase 20% em um dia é um teste de nervos.

A ilusão de estabilidade e a alternativa Multimercado

Prasenjit Paul, analista de pesquisa de ações, toca em um ponto crucial: o problema não é apenas a queda, mas a “ilusão de estabilidade” que os ETFs criam. Ao transformar metais voláteis em ativos negociáveis como ações, investidores acabam reagindo exageradamente às oscilações diárias sem um plano claro de entrada e saída.

É justamente para mitigar esse tipo de risco direcional — onde se aposta todas as fichas em um único fator, como o ouro — que os Fundos Multimercado ganham destaque. Eles surgem como uma solução robusta para quem deseja diversificar de maneira prática, delegando a gestão do risco a profissionais. Diferente dos fundos que compram apenas ações ou apenas renda fixa, a política de investimentos dos multimercados envolve múltiplos fatores de risco, sem a obrigatoriedade de concentração em nenhum deles.

Essa categoria de fundos é vista como um passo adiante na escala de sofisticação financeira. A grande vantagem reside na flexibilidade: o gestor tem liberdade para navegar por diferentes mercados — juros, câmbio, bolsa e commodities — e pode, inclusive, utilizar derivativos tanto para proteger a carteira quanto para alavancar os ganhos.

Como funciona a gestão profissional na prática

Enquanto o investidor individual de ETFs pode entrar em pânico e vender no fundo do poço durante um dia de “crash”, o gestor de um fundo multimercado utiliza estratégias pré-definidas para atravessar a turbulência. Os ganhos e perdas são compartilhados pelos cotistas proporcionalmente, mas as decisões são técnicas.

Em cenários onde a renda fixa perde atratividade devido à queda de juros, ou quando a bolsa está muito arriscada, os multimercados aparecem como o “caminho do meio”. Eles não são necessariamente conservadores, mas buscam retornos superiores aos das aplicações tradicionais, correndo riscos calculados. Graças a essa liberdade de alocação, a rentabilidade pode variar enormemente dentro da categoria. Em um mesmo ano, é possível ver fundos com retornos duas ou três vezes superiores aos seus pares, dependendo da leitura que o gestor fez do cenário macroeconômico.

Atenção à liquidez e regras de saída

Outro ponto que diferencia os multimercados da negociação direta de ETFs em bolsa é a regra de resgate. A liquidez imediata dos ETFs pode ser uma armadilha psicológica, incentivando vendas impulsivas. Já nos fundos multimercado, as regras costumam ser mais rígidas, funcionando como uma trava de segurança para a estratégia do gestor.

Não é raro que esses fundos exijam prazos de carência ou datas de conversão alongadas (conhecidas como D+10, D+30 ou até D+90). Isso significa que, ao pedir o resgate, o valor da cota será calculado dias ou meses depois, com o pagamento ocorrendo posteriormente. Esses prazos são necessários porque muitas vezes o fundo investe em ativos de menor liquidez, como crédito privado, e precisa de tempo para desfazer as posições sem prejudicar a rentabilidade dos cotistas remanescentes.

Diante da volatilidade abrupta vista hoje nos metais preciosos, fica evidente que investir sem diversificação ou sem compreender a natureza do ativo é arriscado. Os fundos multimercado, embora não isentos de oscilações, oferecem uma estrutura onde a diversificação não é apenas uma ideia, mas a regra do jogo.